Terça fomos ao teatro. Fazia quase de 20 anos que eu não pisava numa sala escura e encarava um palco de teatro. Foi no Teatro Leblon, Sala Tônia Carrero. A peça era “Raul Fora da Lei – A História de Raul Seixas”, biografia musicada de Raul Seixas, estrelada pelo Roberto Bomtempo desde janeiro de 2000, e, portanto, completando 10 anos. Momento de euforia e festa.
Já nos sentíamos privilegiados de termos sido chamados para criar a identidade desse espetáculo e do “Espia uma mulher que se mata”, de Daniel Veronese, ambos da Companhia Movimento Carioca de Teatro, com Miriam Freeland, Roberto Bomtempo e Ana Paula Sant’Anna produzindo. Era dezembro de 2009 quando nos chamaram.
No início, insegurança, como todo projeto em campo inexplorado. Neste caso, cultura, teatro. O relógio corria, era dezembro e os espetáculos re-estreariam em janeiro. Onze peças gráficas para serem desenhadas e reproduzidas em gráfica.
Nos encontramos com Miriam e Roberto numa tarde chuviscosa. Um casal formidável; a reunião aconteceu fácil. Saímos da reunião com a boca apertada: era coisa pra caramba, pouco tempo… aquela estória toda de design.
Passa-se o mês, o ano vira, chega o dia da re-estréia do “Raul…”. Para dar o clima de aventura, passamos à tarde resolvendo aquele velho joanete em todo pé de designer: gráfica. Deu merda na impressão do programa e tivemos que reajustar a arte do programa e correr para um bureau de impressão. Duzentos programas foram entregues às 19h no Teatro. Salve!
Era 20:40h quando chegamos ao Teatro. Calor dos infernos que fazia, chegamos suados e sacudidos do ônibus. Como diz Renata “- É caído não ter carro.”. Correto. Sentamos à mesa de uma lanchonete natureba e nos refrescamos com sucos gelados. Levantamos e caminhamos até a porta onde uma pequena multidão se amontoava.
Nos sentamos na fileira G, lado direito da sala. Víamos as pessoas lendo o programa que desenhamos e tirávamos fotos; uma bobeira só.
A cigarra toca algumas vezes e as pessoas começam a se calar. Vemos 4 músicos à direita. Era a banda que acompanhava Roberto (fiquei de cara com a guitarra que o rapaz empunhava).
Começa o espetáculo com tudo escuro. O impacto inicial foi estrondoso em mim. Roberto encarna Raul com vontade e experiência. De cavanhaque, com postura e trajado à caráter, dizia-se tratar do próprio Raul ao acenderem as luzes de palco.
Chegava então a hora que eu não esperava. Não estava preparado. Roberto em pé, voz branda, quase um susurro:
Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que ele me falou.
Era Gita, música que marcou Raul, o trouxe de volta ao Brasil durante o regime militar e o fez alcançar uma marca de vendas invejável; música inspirada pelo livro Bhagavad Gita, escritura hindu de importância mística incontestável.
Roberto cantava a primeira estrofe da canção, ainda sussurrando. Luzes de palco acesas. Tudo ia calmo.
Às vezes você me pergunta, por que é que eu sou tão calado. Não falo de amor quase nada, nem fico sorrindo ao teu lado.
Foi o silêncio que precedia o esporro. Roberto abre os braços como que clamando aos céus. Nesse momento entra Raul cantando, apagam-se as luzes principais, acendem-se as luzes de fundo, meio azuladas, roxas. Som forte, volume bem alto. Tudo ao mesmo tempo. Roberto cambaleia e sai de lado, arrebatado pelo personagem. Seu rosto e corpo ficam nas sombras, só se vê silhueta:
Você pensa em mim toda hora. Me come, me cospe, me deixa. Talvez você não entenda, mas hoje eu vou lhe mostrar.
Viera como um soco. Sentia um nó na garganta, meus olhos embaçavam, meus braços se arrepiavam. Pareceu que o teatro ficava mais frio nesse momento.
Não vi o que aconteceu depois. Quando me dei conta a música tinha acabado e tudo havia voltado ao normal. Foi um vácuo total, como seu eu tivesse caído desmaiado, acordando depois da tempestade.
A memória não trai e o corpo não mente. Os detalhes vão embora mas o mesmo nó, o mesmo embaço nos olhos e o mesmo arrepio voltam quando me lembro da cena.
Não sei se vi tudo que descrevo. Muito menos sei o por quê senti isso tudo nessa cena. Mas senti. Pode ter sido num sonho que ele me falou.
Devo encarar os fatos: nunca fui fã de Raul. Sempre o achei criativo e doido, mas musicalmente nunca me atraiu.
Ao contrário do que aconteceu com o filme do Cazuza, que me fez ter asco do artista e me levou a sumir com os discos dele que eu tinha, o espetáculo “Raul…” me fez deixar de ser cruel com o artista. Não virei fã dele, mas agora o respeito muito, principalmente no uso que ele fazia das palavras, que era sua vocação primária, na minha modesta opinião.
Mas o espetáculo me fez fã do Roberto.
Para quem quiser assistir aos espetáculos “Raul Fora da Lei” e “Espia uma mulher que se mata”, aqui vão informações adicionais:
// “Raul Fora da Lei” //
Todas às terças às 21h até 23/03/2010.
// “Espia uma mulher que se mata” //
Todas às quartas e quintas às 21h até 25/03/2010.
TEATRO LEBLON – Sala Tônia Carrero
Rua Conde Bernadotte, 26 – Leblon
Rio de Janeiro – Tel. (21) 2529 7700





