No ano passado, a maior empresa de produtos alimentícios da Noruega, Tine, recebeu o selo “Café do Brasil” em seu famoso produto IsKaffe, que significa “café gelado” em norueguês.
Para promover a conquista do selo, este ano a Tine juntou-se com a agência Dist Creative, também norueguesa, e fez um chamado aos artistas brasileiros através do Behance para que enviassem seus trabalhos. Os trabalhos escolhidos seriam exibidos em pontos-de-ônibus por toda a Noruega, revistas, blogs noruegueses e também na página do IsKaffe no Facebook.

Quando li a mensagem, me empolguei; virei para Bárbara e ela me disse: “Poderíamos fazer algo poético“. Foi o suficiente.
A caminhada deveria ser rápida. Em uma semana eu teria que aprontar algo. A idéia veio e tinha que ser colocada em prática o quanto antes.
Bem no início pensei: Candido Portinari. Caí na internet e encontrei sua famosa pintura “Café”.

O desafio, incrível ele pareça, era representar o Brasil neste projeto. O assunto, passava longe da representação comum do Brasil, isto é, como se ele fosse somente o Rio de Janeiro: praias, sol, samba, Cristo Redentor, Bossa Nova etc. Pensando em café vinham São Paulo e Minas Gerais em mente. Não conhecemos bem estes Estados, sem falar de suas produções cafeeiras. Somos bons bebedores de café, como todo o brasileiro, e só.
Nem precisa dizer que o desânimo tomou conta. Uma idéia na cabeça e uma semana para concretizá-la. Pausei.
Acordei uns dias depois com aquilo na cabeça, martelando. Somente a pintura do Portinari não tinha tocado o sino que eu precisava ouvir.
Entrei no banho, como de costume assim que acordo, e chamei a idéia para uma conversa: “O que vem à mente quando penso em Brasil/café/poético/Portinari?”. A mente corre rápido como uma máquina de caça-níqueis e pára em:
E agora? Compositor clássico, brasileiro, praticamente desconhecido do povo brasileiro. Então, por que logo Villa-Lobos?
Acabei o banho, fui à sala e fiz uma busca na nossa coleção de LPs e achei o disco do Villa-Lobos. Folheei o encarte e encontrei a pintura do Portinari “Café” na contra-capa. Bem, é um bom sinal. O coração chegou até a dar um tranco.
Mas não quis ouvir o disco. Li o encarte do disco com atenção e depois fui até a internet pesquisar a vida do compositor. Achei o website oficial dele no Canadá. Sim, o website oficial do Villa-Lobos é canadense, criado e gerenciado pelo dedicado Dean Frey, Diretor da Red Deer Public Library. Completíssimo, um primor de organização. Tem tudo sobre o compositor. Dean Frey vai ainda mais longe e coloca à disposição o The Villa-Lobos Magazine (desde 2001!), o Tumbling Villa-Lobos e um perfil no Twitter dedicado ao compositor.
Mas ainda nada de sino tocar. Buscando na memória lembrei de duas músicas que guardei em mente em algum momento da minha vida. Tinha certeza de que eram famosas. Lembrava vagamente das melodias e, para ajudar, não sabia o nome das músicas. Piorando a situação: Villa-Lobos escreveu, ao longo de sua vida, mais de 1.000 obras, um número inexato, já que não existe catálogo oficial de suas obras. Suspirei profundamente.
A procura no Youtube foi mais feliz. Ao começar a digitar “Heitor Villa……” veio a sugestão “Bachianas Brasileiras”. Na lista, um vídeo com uma bonita e antiga foto me chamou a atenção. Era a “Bachianas Brasileiras No. 5 Aria (Cantilena)”, cantada pela intérprete lírica brasileira Bidú Sayão.
Era essa! Agora o sino tocara de verdade. Que melodia! Que interpretação! Achei a música que ia me inspirar projeto adentro.
Mãos à obra. Comecei a cata de imagens em todos os bancos de imagens que me lembrava. Felizmente achei as que precisava; todas lindas e poeticamente corretas; pareciam fazer parte da canção.
Mas a composição ainda não fazia sentido, pelo menos da forma como eu havia feito. A ordenação das fotos, a interrupção brusca entre elas, a falta do logo do IsKaffe. Não sabia o quê poderia estar errado. Eu ouvia a suíte cantada pela Bidú e olhava para a composição com as quatro fotografias. Parecia ser o caminho mas ainda faltava algo importante. O trabalho ainda não estava fechado.
No limbo do desâmino novamente.
Voltando alguns passos, qual era a outra música do Villa-Lobos que eu vagamente me lembrava? Tinha um nome parecido com “Trenzinho do Caipira”. Fui atrás da música e achei. Resolvi escutar olhando para a composição visual que acabara de fazer.
Sim!!! Era a “Bachianas Brasileiras No. 2 – Toccata: O Trenzinho do Caipira”.
E neste exato momento a finalização do trabalho veio à mente. A ordenação das fotografias, começo, meio e fim, as ligações entre elas e o logo do IsKaffe com sua padronagem. Contara uma estória:
Café do Brasil – A Colheita & A Viagem
Parte I – A Colheita. Todos os dias como uma benção.
Parte II – A Viagem. Ao destino, como uma bela sinfonia.
Mandei um email para minha amiga Tatiana Fernandes, morando na Noruega há cinco anos, e pedi para que ela traduzisse para o norueguês a estória que eu acabara de contar:
Kaffe fra Brasil – Innhøstningen & Reisen
Del I – Innhøstningen. Hver dag, som en velsignelse.
Del II – Reisen. Til destinasjonen, som en vakker symfoni.
E aqui está o poster de 231 X 340 mm:
Bárbara completou o projeto criando esta linda apresentação:

